Arquivo da tag: clarisse lispector

Um brinde ao ócio criativo…..

londonn

“Fique de vez em quando sozinho, senão você será submergido. Até o amor excessivo dos  outros pode submergir uma pessoa.”

– “De corpo inteiro” – Página 68; de Clarice Lispector – Publicado por Rocco, 1999 – 210 páginas

Atualmente há muita cobrança por pró-atividade… você tem que correr atrás dos objetivos, não pode parar nunca! Mas nesse mundo onde tudo acontece muito rápido, onde tudo tem que ser na velocidade ditada pela sociedade, ela acaba gerando sentimentos que fazem tanto mal a gente… a ansiedade, depressão, medo.

Se perdeu o emprego, saia correndo para procurar outro, mesmo que não haja necessidade de pressa, nos dias de hoje é um absurdo dizer que fica olhando pro teto, coçando… como se fosse um alienigena.  Aqui no Brasil se um jovem de seus 20 anos não estiver na faculdade tem algum problema, não importa se não é aquilo que ele quer, importa que faculdade é básico, todos tem que ter. E seu filho? Que além da escola faz judô, natação, inglês, informática… Tá. E a que hora ele brinca? Que tempo ele tem pra se deixar imaginar, criar, inventar? Estaria ele preso às suas expectativas e horários devidamente planejados? Mas na verdade para que viemos ao mundo? Para trabalhar initerruptamente? Produzir mais e mais lixo? Pra tentar ser sempre o melhor (da classe, da empresa, dos amigos)? O que isso te acrescenta a não ser dinheiro, sucesso, dor de cabeça e solidão?

Pense num dia numa praia, pense numa conversa com os avós, pense numa viagem com o namorado…. eu sinceramente cresço muito mais quando estou relaxada, é quando tenho minhas melhores idéias, quando penso sobre coisas fantásticas… Seria estranho se minhas ideias geniais não surgissem durante o banho (meu sonho é ter uma lousa no box pra anotar tudo!) … e não porque eu sou daquelas que ficam 30min debaixo do chuveiro… eu não gasto mais que uns 12 minutos lá, e desligo a água [precisamos ajudar o meio ambiente] … mas é a hora que todos os outros estímulos externos não estão, sou só eu e meus pensamentos… Outro lugar maravilhoso é o ônibus! De propósito não levo iPod nem genéricos comigo, as vezes um livro, mas o que mais gosto em andar de ônibus são todas as idéias geniais que tenho durante o percurso… pode até ser que quando chegar em casa eu acho tudo uma babaquisse, mas e daí? Isso não significa que não valha a pena se pensar sobre tudo e sim que temos bom senso. 😀

Quem sabe tá na hora de pensar que sim, estamos num mundo onde a velocidade das informações é extremamente rápida e a vida é estressante, mas isso não importa se você se permitir estar consigo, curtir seus pensamentos e devaneios….

Escrevendo eu me lembrei de um dos meus poemas favoritos de Clarice Lispector, e como ela consegue descrever a nossa ansiedade e como se distrair, e o mais que óbvio, provado por minhas teorias gabrielais: quanto mais esperamos uma coisa, mais ela demora para acontecer [vide os segundos intermináveis do microondas..]

“Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto.
No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nomeporque quiseram ser, eles que eram.
Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.”

Clarice Lispector